Wednesday, March 10, 2004
Das duas uma: ou o poço era realmente muito fundo, ou ela estava a cair muito devagar, pois enquanto descia teve tempo de sobra para olhar em redor, e interrogar-se sobre o que ia acontecer a seguir.
Lewis Carroll, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas
I
Primeiro, abriu-se uma porta.
Depois, descobriu-se um mundo.
Virtual.
A Internet é a porta e a queda para uma dimensão onde a realidade pode ser um excesso ou um mero ingrediente. Pode até ser esquecida como a conhecemos. A melhor descrição desse mundo virtual não envolve computadores e data de 1886. O País das Maravilhas, a dimensão surrealista que Lewis Carroll ofereceu a Alice, é a melhor das comparações. No deslumbre, na estupidez, na imensidão, na surpresa, no descontrole, nas mensagens de erro. Nos outros.
As criaturas que Alice conheceu nas suas aventuras não eram assim tão estranhas. Todos as conhecemos. O País das Maravilhas é a sociedade cortada aos pedaços e montada de novo. Mas não necessariamente pela ordem original… Hoje, neste preciso momento, essa realidade retalhada joga-se no ecrã mais próximo.
II
Blog é um fragmento de weblog. Um blog é um fragmento de alguém. A blogosfera é uma soma de fragmentos com resultado incerto.
III
Antes do romance: um blog é apenas uma web page. Pode ser uma página pessoal, de (des)afectos. Pode ter a frieza da seriedade. É suposto ser construída aos pedaços, um por cada dia. A palavra domina, mas há quem arrisque a imagem. Nunca se chega ao produto final. Há sempre o dia seguinte. Ou não. Há quem desista. Como cá fora, todos os dias nasce e morre gente. A diferença está no poder de escolha.
Um blog começa sempre por ser uma solidão. A sociedade é o meio esquizofrénico que resolve essa dor. Também aqui. Um blog pode ser uma página mas tem mais do que duas dimensões. É um lugar dentro de um lugar imenso, uma teia em permanente construção, em que cada um pode ser a aranha.
A blogosfera é uma réplica barata da sociedade. É muito parecida com o turbilhão à nossa volta. Mas. Tem mais variedade que num bazar chinês. Mais lixo que na nossa televisão. Mais qualidade que numa boa revista literária. Tem mais. É um excesso. É a liberdade dos pobrezinhos. Dos que queremos dizer fazer o que nos apetece. Dos que não queremos dizer nada. É mais uma existência.
Uma verdade de rodapé: a blogosfera deste país reflecte o seu tamanho: é pequenina. O que facilmente se esquece, tal a sua efervescência. Há sempre lugar para mais alguém. A primeira lição que se aprende é que há uma comunidade. Diferente, mas nem tanto. Não existem títulos nem idades. Existem amizades e conflitos. Existem a partilha e o roubo. Existem e inexistem escrúpulos. Debates com insultos e elogios. Sorrisos, beijos e abraços trocados ao segundo e-mail.
Cada um pode ser o que quiser: dar-se ou inventar-se. Pode-se aprender e desaprender à velocidade que se quiser. Debater sem hierarquias. Este lugar onde poucos conhecem o rosto de quem lêem, é um lugar de transparência. Há quem queira ser mais uma ovelha tresmalhada e há quem pedinche para ser aceite, visitado, referenciado. Há quem não saiba muito bem o que por lá anda a fazer. É tudo muito óbvio, mesmo quando pouco tem a ver com as vidas reais dos que por aqui se passeiam.
Entretanto: como Alice, vamos explorando o desconhecido, abrindo portas, escolhendo, arriscando. Vamo-nos cruzando com palavras nunca lidas, com frases batidas, com perguntas idiotas e pertinentes que nos param o olhar. Há aí uma certa prisão. Uma teia que nos vai enredando, a que vamos voltando. Há um vício que se instala nos dedos que se instalam nas teclas. As palavras que se escrevem se apagam se lêem. Vamos espiando outros que nos entregam as suas realidades ou as suas ficções, as suas verdades e os seus enganos. Há um voyeurismo permitido, desejado e sem sentimentos de culpa.
A blogosfera tem tudo para ser a pulga atrás da orelha dos monopólios do saber, dos mesmos de sempre que nos vão diariamente benzendo com as suas opiniões absolutas. Aqui, os nomes variam. Aqui, descobrem-se talentos anónimos e excelências até aí desconhecidas. Aqui, podemos agir.
Lewis Carroll, As Aventuras de Alice no País das Maravilhas
I
Primeiro, abriu-se uma porta.
Depois, descobriu-se um mundo.
Virtual.
A Internet é a porta e a queda para uma dimensão onde a realidade pode ser um excesso ou um mero ingrediente. Pode até ser esquecida como a conhecemos. A melhor descrição desse mundo virtual não envolve computadores e data de 1886. O País das Maravilhas, a dimensão surrealista que Lewis Carroll ofereceu a Alice, é a melhor das comparações. No deslumbre, na estupidez, na imensidão, na surpresa, no descontrole, nas mensagens de erro. Nos outros.
As criaturas que Alice conheceu nas suas aventuras não eram assim tão estranhas. Todos as conhecemos. O País das Maravilhas é a sociedade cortada aos pedaços e montada de novo. Mas não necessariamente pela ordem original… Hoje, neste preciso momento, essa realidade retalhada joga-se no ecrã mais próximo.
II
Blog é um fragmento de weblog. Um blog é um fragmento de alguém. A blogosfera é uma soma de fragmentos com resultado incerto.
III
Antes do romance: um blog é apenas uma web page. Pode ser uma página pessoal, de (des)afectos. Pode ter a frieza da seriedade. É suposto ser construída aos pedaços, um por cada dia. A palavra domina, mas há quem arrisque a imagem. Nunca se chega ao produto final. Há sempre o dia seguinte. Ou não. Há quem desista. Como cá fora, todos os dias nasce e morre gente. A diferença está no poder de escolha.
Um blog começa sempre por ser uma solidão. A sociedade é o meio esquizofrénico que resolve essa dor. Também aqui. Um blog pode ser uma página mas tem mais do que duas dimensões. É um lugar dentro de um lugar imenso, uma teia em permanente construção, em que cada um pode ser a aranha.
A blogosfera é uma réplica barata da sociedade. É muito parecida com o turbilhão à nossa volta. Mas. Tem mais variedade que num bazar chinês. Mais lixo que na nossa televisão. Mais qualidade que numa boa revista literária. Tem mais. É um excesso. É a liberdade dos pobrezinhos. Dos que queremos dizer fazer o que nos apetece. Dos que não queremos dizer nada. É mais uma existência.
Uma verdade de rodapé: a blogosfera deste país reflecte o seu tamanho: é pequenina. O que facilmente se esquece, tal a sua efervescência. Há sempre lugar para mais alguém. A primeira lição que se aprende é que há uma comunidade. Diferente, mas nem tanto. Não existem títulos nem idades. Existem amizades e conflitos. Existem a partilha e o roubo. Existem e inexistem escrúpulos. Debates com insultos e elogios. Sorrisos, beijos e abraços trocados ao segundo e-mail.
Cada um pode ser o que quiser: dar-se ou inventar-se. Pode-se aprender e desaprender à velocidade que se quiser. Debater sem hierarquias. Este lugar onde poucos conhecem o rosto de quem lêem, é um lugar de transparência. Há quem queira ser mais uma ovelha tresmalhada e há quem pedinche para ser aceite, visitado, referenciado. Há quem não saiba muito bem o que por lá anda a fazer. É tudo muito óbvio, mesmo quando pouco tem a ver com as vidas reais dos que por aqui se passeiam.
Entretanto: como Alice, vamos explorando o desconhecido, abrindo portas, escolhendo, arriscando. Vamo-nos cruzando com palavras nunca lidas, com frases batidas, com perguntas idiotas e pertinentes que nos param o olhar. Há aí uma certa prisão. Uma teia que nos vai enredando, a que vamos voltando. Há um vício que se instala nos dedos que se instalam nas teclas. As palavras que se escrevem se apagam se lêem. Vamos espiando outros que nos entregam as suas realidades ou as suas ficções, as suas verdades e os seus enganos. Há um voyeurismo permitido, desejado e sem sentimentos de culpa.
A blogosfera tem tudo para ser a pulga atrás da orelha dos monopólios do saber, dos mesmos de sempre que nos vão diariamente benzendo com as suas opiniões absolutas. Aqui, os nomes variam. Aqui, descobrem-se talentos anónimos e excelências até aí desconhecidas. Aqui, podemos agir.